A reinvenção da Madeira

Noventa dias. Esse era o prazo máximo para Antônio de Pádua Assunção permanecer na fazenda Sant’Ana do Monte Alegre, nos arredores de Descalvado, a 242 quilômetros de São Paulo. Restaurador formado nas oficinas do tradicional Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, o marceneiro havia sido contratado pelo casal dono da fazenda para recuperar dois armários de farmácia do século XIX trazidos do Piauí. “Os móveis estavam muito danificados, mas calculei que o serviço não levaria mais do que três meses”, lembra. O esmero com que o artesão tratou a mobília, contudo, chamou a atenção dos proprietários, que logo o convidaram para transformar uma antiga tulha de café em ruínas na sede da propriedade. A partir daí, a obra ganhou tal proporção que foi necessário criar uma marcenaria no interior da gleba, naquele início da década de 1990. Dezesseis anos se passaram desde então e seu Toninho, como é conhecido, hoje comanda a Marcenaria da Fazenda, ideia que transcendeu a missão original, de projeto particular, para se consolidar como uma marca referendada por profissionais como Claudia Moreira Salles, Isay Weinfeld, Felippe Crescenti, Renato Marques e Eduardo de Almeida.

Movido por esse fascínio, ele exercita agora um de seus grandes deleites: garimpar madeira de demolição pelo interior do Brasil, principalmente em fazendas seculares de Minas Gerais, para alimentar a marcenaria. “Gosto de madeira de demolição porque, além de respeitar a natureza, tenho a possibilidade de trabalhar com um material estável, com pelo menos 150 anos de vida.” O resultado é que dois dos três galpões que compõem a marcenaria ficam apinhados com toras de várias procedências – boa parte do atual lote, com mil peças, é de achados do mestre, espécies extintas, como jacarandá-da-baía ou Gonçalo-alves, que dividem espaço com madeiras de corte sob supervisão do Ibama. Também no lote, madeiras certificadas pelo selo FSC (Forest Stewardship Council). “As peças mais usadas são os assoalhos, por conta da versatilidade: elas podem tanto forrar o piso quanto fazer portas, mesas, escadas e painéis”, constata a engenheira Drica Jank, que administra o negócio desde 2005, ano em que a marcenaria abriu as portas para clientes.

Uma das primeiras encomendas veio da designer Claudia Moreira Salles, convidada para desenhar a cadeira usada pelo papa Bento XVI em sua visita ao Brasil, em 2007. Amiga dos proprietários da fazenda, ela se lembrou da marcenaria e resolveu apostar no novo negócio. “O trabalho ficou muito bem-feito e marcou o início de uma parceria com muitos frutos”, conta Claudia, que recentemente desenvolveu com os marceneiros os novos bancos de descanso do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e hits como o banco Dominó, exposto na mostra “Imaginários Dpot”, em novembro, no Mube. “Aquela cadeira foi muito importante para divulgar nosso trabalho”, diz o mestre, que se define como um católico que não liga para religião. Mesmo assim, ele se emociona ao lembrar da procissão organizada pelos donos da fazenda quando ficou pronta a peça, composta de um mosaico de madeiras como pinho-de-riga, peroba-do-campo e pau-brasil de demolição. “Nessas horas você se sente muito importante”, constata ele. Hoje o móvel é exibido com status de relíquia em uma redoma na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, interior de São Paulo, onde a missa foi celebrada.

Portfolio a céu aberto

O feito que melhor ilustra o fôlego e a delicadeza da marcenaria, contudo, é a restauração da própria fazenda Sant’Ana do Monte Alegre, que produzia café do século XIX comprada pelos atuais proprietários no início da década de 1990. A primeira empreitada ali foi restaurar a antiga tulha de café, tarefa que consumiu quatro anos de trabalho. “O desafio da tulha era total: ela estava completamente destruída e todos os arquitetos que vinham à obra recomendavam demoli-la”, diz. “Ainda bem que os proprietários bateram o pé e hoje o lugar é a menina dos olhos deles.”

Para ajudá-lo no restauro, o mestre passou a recrutar parentes e conhecidos de Ritápolis, cidade onde o ofício de talhar a madeira passa de pai para filho. Junto da equipe, seu Toninho recuperou com dedicação boa parte da casa de pau a pique e paredes de pedra, trazendo de volta a utilidade e a beleza de vigas, pilares, assoalhos, esquadrias e escadas. Além disso, produziu novos armários, guarda-corpos e até parte da caixilharia. Ao fim do trabalho, a construção passou a ser a casa principal, onde ficam os quartos dos proprietários e as salas – tudo povoado por mobiliário europeu e brasileiro do século XIX. “Restaurar a tulha foi um trabalho emocionante”, conta o marceneiro Domingos Savio José de Oliveira, o primeiro a chegar a convite do amigo e até hoje nos quadros da oficina. “Para descobrir como fazer o forro tipo fundo de gamela, executado pelos escravos do passado, fomos a uma fazenda da região”, conta.

Com a tulha pronta, os marceneiros não tiveram tempo de descansar: permaneceram na fazenda para, entre outras tarefas, transformar a antiga escola em um complexo com sete suítes para hóspedes. Ao todo foram dez anos de trabalho, cujo resultado primoroso cosegue arrancar suspiros até dos mais refratários. Quando a odisseia chegou ao fim, os proprietários decidiram emancipar a marcenaria e abri-la a terceiros – uma forma de não dispensar a mão de obra, que somava na ocasião 18 trabalhadores. Com a mesma generosidade, na época implantaram um viveiro de mudas de manejo com espécies nobres e raras como jacarandá-da-baia, cabreúva e peroba-do-campo. “Foi a maneira que encontraram de retribuir à natureza a madeira usada no restauro da fazenda”, conta Drica.

Agora no papel de clientes fiéis, os donos da fazenda produzem com seu Toninho e equipe os presentes que costumam enviar para amigos mais próximos no Natal. A cada ano, preparam uma surpresa: de mesinha de apoio a bengaleiro. Não por acaso, o galpão da marcenaria só faz crescer – atualmente, são oito projetos em curso. Embora tudo seja feito sob encomenda, a marcenaria apresenta também uma coleção própria de móveis e objetos. “Essa versatilidade de executar peças variadas é um dos pontos altos do trabalho deles”, destaca o arquiteto André Vainer. Com ele concorda o colega Renato Marques, conhecido pelos projetos com madeira de demolição. “Além do capricho, eles mantêm vivo um ofício artesanal que está perdendo espaço para a indústria no Brasil.” Por conta do boca a boca que engorda o volume de trabalho, novas máquinas chegaram nos últimos meses à oficina, mas o grupo de marceneiros sabe que está na destreza de suas mãos a receita do sucesso.

Data: Janeiro de 2011 | Fonte: Revista Private Brokers - Coelho da Fonseca