Madeira e Memória

O grupo de marceneiros se encontra para mais um dia de trabalho numa fazenda próxima a Descalvado, a 242 km da capital paulista. A paisagem que os cerca emana algo de encantador, assim como a lida que interpretam. Esses artesãos têm na destreza das mãos e na concentração da mente a receita para fazer cortes precisos na chapa de madeira, lixar superfícies que ficam tão lisas quanto uma folha de papel e produzir encaixes perfeitos. Os móveis, de silhuetas clássicas ou modernas, nascem do esmero coletivo, talhado sob a coordenação do mestre-marceneiro Antonio de Pádua Assunção, mais conhecido como seu Toninho. Em 1994, ele chegou ali para ajudar na restauração da tulha de armazenagem de café do século 19, que estava em ruínas. Foi chamando os primos, os amigos e os colegas da cidade natal, Ritápolis, próxima a São João Del-Rei, em Minas Gerais, para se juntar a ele no trabalho de construção de novas moradas, na restauração do mobiliário histórico e na reconstrução da tulha. Algumas áreas dessa casa de pau a pique e paredes internas de pedra conseguiram se manter resguardadas sob a inclemente passagem dos séculos e foram recuperadas com paciência, capricho e dedicação ao longo dos três anos. “É preciso muita experiência para saber qual madeira pode ser reaproveitada. Quando restauramos um móvel, por exemplo, trocamos todas as partes deterioradas, preservando sua autenticidade e a pátina do tempo”, explica seu Toninho. Com sua equipe de marceneiros, ele trouxe de volta a utilidade e a beleza das vigas, pilares, assoalhos, esquadrias e escadas. Além disso, foram produzidos novos armários, guarda-corpos e até parte da caixilharia. Depois dessa obra minuciosa, a velha tulha se tornou a menina dos olhos da família. Uma vez terminado o restauro, ela passou a ser a casa principal, onde ficam os quartos dos proprietários e as salas, em que predominam mobiliário europeu e brasileiro do século 19. Da incansável dedicação de uma família em manter viva a memória de uma construção, nasce também a história da Marcenaria da Fazenda.

Baseada no cuidado e no respeito à madeira, a tradição mineira de marcenaria é transmitida de geração para geração. Seu Toninho, que desde criança acompanhava os artesãos da família em São João Del-Rei, aprimorou o conhecimento com o mestre Aníbal Braz, do Liceu de Artes e Ofícios. “A prática faz um marceneiro. Além de ter o dom, é preciso se dedicar e estudar para trabalhar com a madeira”, diz. Em 2005, a Marcenaria da Fazenda abriu as portas para clientes. Uma das primeiras encomendas veio da designer de móveis Claudia Moreira Salles. Ela pediu à equipe que produzisse a cadeira que seria usada pelo papa Bento XVI em sua visita ao Brasil, em 2007. A peça reúne pinho-de-riga, jacarandá-da-bahia, pereira, canela, óleo-bálsamo, peroba-do-campo e pau-brasil de demolição. Com esse móvel, a Marcenaria da Fazenda ganhou notoriedade. Sob a coordenação de seu Toninho e da engenheira Drica Jank, hoje 36 profissionais lidam com madeiras de reuso, madeiras de corte sob supervisão do Ibama e madeiras certificadas pelo FSC (Forest Stewardship Council).Todo o material fica organizado em dois galpões que o protegem da chuva e umidade. Um terceiro galpão é reservado à produção. Dali saem móveis com sistema de encaixe, dispensando o uso de pregos e parafusos. A qualidade das peças e o capricho do acabamento atraem pedidos de profissionais como Isay Weinfeld, Renato Marques, Felipe Crescenti, Eduardo Almeida, André Vainer e Guilherme Paoliello. Embora tudo seja feito sob encomenda, a Marcenaria apresenta também uma coleção própria de móveis e objetos. O que começou para atender a um projeto particular vem se consolidando como uma marca de alta-costura de madeira. A família proprietária da fazenda, preocupada com questões de sustentabilidade, reservou uma extensa área para implantar um viveiro de mudas de manejo. “A generosidade desses proprietários permitiu que a Marcenaria se mantivesse mesmo quando terminaram as obras. Todos nós continuamos a trabalhar”, conta seu Toninho. Sorte nossa que o talento dos artesãos estende-se agora para além dos portões desta fazenda encantada.

Data: Janeiro de 2010 | Fonte: Cristina Bava e Luciana Jardim - Revista Casa Claudia Luxo